Religião: Inquisição e Tribunal do Santo Oficio



A CRIAÇÃO DA INQUISIÇÃO
Criada sob o pretexto de preservar a fé católica diante do crescimento das heresias, a Inquisição foi uma das etapas mais sombrias da humanidade e da igreja. Em nome de Jesus muitas pessoas foram perseguidas, torturadas e mortas.

Conhecida popularmente como Tribunal do Santo Ofício, a inquisição era uma função na Igreja Católica. Na medida em que a igreja foi organizando sua estrutura, estabeleceu também suas regras que, com o tempo, foram organizadas no Direito Canônico. Os conflitos internos da igreja deram origem ao policiamento do clero, a investigação disciplinar, mais tarde usado no combate ao que eles chamavam de heresias.

O crescimento do dogmatismo, da coerção e do poder material da Igreja, provocou o surgimento de outras igrejas. Algumas tentavam recuperar a pureza e a austeridade da Igreja Primitiva. As dezenas das chamadas seitas que surgiram pregavam uma nova ética cristã, em oposição à opulência, riqueza e aos desmandos da Igreja Católica, que tinha como meta apenas sua prosperidade econômica. A vida luxuosa de alguns líderes da igreja Católica fez com que a população menos favorecida não reconhecesse mais a função religiosa dos representantes do clero.

Novas interpretações religiosas passaram a assumir o papel de uma igreja que se distanciava de suas funções espirituais. Foi dessa forma que surgiram diversos grupos como os joaquistas, os beguinos, os flagelados, os humilhados, etc.

A doutrina chamada pela igreja de herética mais conhecida foi a dos cátaros (puros) ou albigeneses, que se desenvolveu na França, no norte da Itália e norte da Alemanha, durante o século 11. Os cátaros tinham uma igreja organizada e pregavam uma vida simples em comunidade. Defendiam a castidade, o jejum e o vegetarianismo. Organizavam-se em dois grupos: os fiéis e os perfeitos. Diante da opulência da Igreja Católica, a seita atraiu um grande número de adeptos.

A igreja fez oposição aos cátaros com a cruzada Albigenese, que assolou a França durante a primeira metade do século 13. Foi nesse período que as ordens mendicantes dos dominicanos e franciscanos tentaram envolver os hereges com o exemplo de pobreza e humildade.

Muitos hereges eram linchados pela população, e muitos governantes passaram a persegui-los. Dessa forma a Santa Sé (Roma), foi pressionada a oficializar a perseguição aos hereges. Oficialmente as primeiras iniciativas partiram do papa Lúcio III, que amparado pelas recomendações dos concílios de Latrão (1179) e Verona (1184), unificou a repressão às chamadas pela igreja de seitas heréticas.

As atividades inquisidoras do episcopado se intensificaram com o apoio de diversos reinos contra as doutrinas não autorizadas pela Igreja de Roma. O castigo adotado foi o da fogueira contra o delito de lesa-majestade divina, considerado o mais grave crime que poderia ser cometido por uma pessoa.

No entanto, os bispos da igreja não conseguiram controlar a situação. Em 1216, o papa Inocêncio III, elegeu São Domingos de Gusmão, fundador da ordem dos Dominicanos, presidente de um tribunal especial em Toulouse, na França. As decisões do papa tinham como base as determinações do Quarto Concílio de Latrão, de 1215, que estabelecera regras e sustento doutrinário para a inquisição, que foi chamada de “inquisição delegada”, presidida e executada por membros da igreja.

Dessa forma outros tribunais foram criados, ligados a Santa Sé. A estrutura definitiva do Santo Ofício foi delineada no concílio de 1229, em Toulouse, e consolidada em 1231, por bula do papa Gregório IX.

A bula Licet ad Capiendos, do papa Gregório IX, datada de 1233, marcou definitivamente o inicio da inquisição: “onde quer que os ocorra pregar, estais facultados, se os pecadores persistiram em defender a heresia apesar das advertências, a privá-los para sempre dos seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros sem apelação, solicitando em caso de necessário a ajuda das autoridades seculares e vencendo sua oposição, se isto for necessário, por meio de censuras eclesiásticas inapeláveis.

Os chamados inquisidores delegados, geralmente dominicanos ou franciscanos, passaram a agir com eficácia, embora ainda existisse a ação inquisidora dos bispos. Os tribunais eram subordinados ao papa, mas agiam com relativa autonomia. No entanto tornou-se evidente a necessidade de se criar uma coordenação geral das atividades dos tribunais. Dessa forma, o papa Urbano IV crio em 1263, o cargo de Inquisidor Geral, que passou a controlar todos os tribunais da inquisição.

Apesar de ter sido um instrumento útil e poderoso no combate aos chamados hereges, o Tribunal da Inquisição, por suas ações cruéis e injustas, comprometeu a imagem de uma igreja que pregava caridade, amor ao próximo e justiça.

A repercussão de suas atividades e o poder da Inquisição foram muito grandes e se baseavam na idéia implantada a partir do papado de Gregório VII, de que o papa era o representante de Deus na terra. Ele estava no mundo como guarda supremo da fé, para velar pela humanidade, com o poder de intervir nas relações sociais, políticas e religiosas. Qualquer resistência poderia ser aniquilada por ele.

Durante o século 13 a igreja se considerava no auge de seu domínio secular. O papa era o senhor dos corpos e das almas, e tinha poder sobre o bem e o mal. Seus emissários, representantes e inquisidores não executavam diretamente as torturas ou sentenças de morte, embora estivessem presentes em todos esses atos. Após os interrogatórios os réus eram entregues ao estado, às autoridades civis que sob a coação do poder da igreja, eram obrigados a cumprir as penas determinadas aos réus. Caso contrário, também seriam considerados hereges e submetidos ao tribunal.

A pressão era muito grande, pois o papa tinha poder de interditar uma cidade inteira caso seu governante não seguisse suas ordens; o que significaria que, no local os sacramentos da igreja não seriam mais ministrados, e conseqüentemente todos os seus habitantes teriam suas almas “ardendo” no purgatório.

Os acusados deixavam de ter direito aos sacramentos e se reagissem de forma agressiva, às autoridades civis eram obrigadas a intervir. Na primeira fase da Inquisição, o uso da tortura aos poucos foi sendo extinto, sendo autorizada apenas quando já existissem provas do crime ou quando o acusado já tivesse uma má fama.

Inicialmente a prática da tortura habitual nos processos civis foi rejeitada pelos papas, que chegaram a punir alguns inquisidores por sua crueldade. No entanto, em 1252, o papa Inocêncio IV autorizou o uso da tortura quando houvesse algum tipo de dúvida sobre a declaração do acusado.

De acordo com o Concílio de Viena, de 1311, os inquisidores só poderiam usar a tortura com a autorização do bispo diocesano e de uma comissão julgadora que analisava cada caso em particular.

A tortura poderia ser recomendada quando não havia certeza sobre a culpa do acusado. Muitas vezes, a tortura era adiada para que o medo do réu aumentasse e dessa forma ele decidisse confessar sua falta, independente de ser culpado ou inocente, já que depois da acusação não havia a possibilidade de alguém ser inocentado e jamais havia perdão. Aquele que confessava deixava de ser torturado, mas não escapava da pena de morte.

O REGIMENTO INTERNO DA INQUISIÇÃO
Em 1376, surgiu uma espécie de regimento interno do Santo Ofício, um Manual dos Inquisidores, elaborado pelo dominicano Nicolau Eymerich. Mais tarde, o documento foi ampliado pelo dominicano espanhol Francisco de La Peña. O manual era extenso e tinha detalhes sobre a realização das acusações. Os hereges deveriam ser condenados a morte nas chamas em praça pública. Havia o cuidado de se prender a língua dos réus ou amordaçá-los para que não blasfemassem ou ferissem a fé dos que estavam assistindo o cumprimento da pena.

Os inquisidores eram treinados para perceber detalhes nas pessoas que justificassem suspeitas de heresia, tais como hábitos, vestimentas e alimentação. Milhares de mulheres pobres, velhas e desportegidas por serem solteiras, foram sujeitadas a torturas inomináveis. Ao todo foram exacutadas por volta de 30.000 mulheres acusadas de feitiçaria, até o fim do século XVI. As bruxas eram acusadas por todo tipo de calamidade: tempestades, secas, morte de animais em fazendas.

Judeus e sarracenos (muçulmanos) eram motivos de ação dos inquisidores. Sofriam as mesmas suspeitas de heresia aqueles que não freqüentassem a igreja ou não cumprisse seus sacramentos.

A grande ordem era exterminar todos aqueles que se conduzissem contrário as ordens de Roma. As famílias dos acusados sofriam terrivelmente, pois, além da zombaria geral, ficavam em total miséria, pois todos os seu bens, móveis e imóveis eram confiscados pela igreja.

As execuções geralmente ocorriam em dias de festas religiosas e eram precedidas pelos autos-de-fé. Celebrava-se uma missa e se fazia a leitura das sentenças. As execuções eram públicas, eram ao mesmo tempo uma prestação de contas da igreja e um alerta para as pessoas não cometerem os mesmos crimes.

Não existia um limite de idade ou sexo para se ser submetido à Inquisição e às suas torturas. As penas podiam ser brandas e progrediam de acordo com a gravidade da acusação. Todos os castigos impostos pela igreja envolviam flagelos, torturas e confisco de bens pela igreja. Quando a sentença era prisão perpetua, o réu ficava a pão e água, logo morria de inanição e seu corpo era queimado.

Os inquisidores prescreviam a tortura sem intervenção de outras autoridades, e aplicavam-na com ajuda de outros irmãos da Ordem Dominicana, em salas especialmente preparadas nos cárceres do Santo Ofício.

Cada sessão não poderia passar de uma hora e não poderia ser repetida. A confissão obtida sob tortura deveria ser ratificada após um prazo mínimo de 24 horas, para se ter certeza de que o réu não se acusara falsamente para acabar com o tormento. No entanto muitos acusados morriam durante a sessão de tortura.

Na sociedade moderna a caça as bruxas e aos hereges tornou-se importante, pois qualquer um poderia ser considerado ou apontado como um inimigo. O estado por meio de leis proibia as atividades daqueles que eram considerados criminosos pela fé. Dessa forma crimes contra a religião católica eram julgados tanto pelo estado quanto pela igreja, pelo governador ou pelo bispo.

O MAIS CRUEL DOS INQUISIDORES
Frei Tomás de Torquemada foi considerado o mais aterrorizante inquisidor da história. Ele explorava a desconfiança popular com relação aos judeus convertidos e divulgava a idéia de que o mundo deveria contar apenas com “católicos puros”. Para estimular as delações Torquemada elaborou uma cartilha com instruções que ensinava aos católicos como vigiar seus vizinhos e reconhecer prováveis traços de práticas judaicas. O uso de roupas limpas e coloridas aos sábados, a limpeza da casa na sexta-feira e a recitação de preces diante de um muro eram algumas das características que podiam determinar uma ligação com o judaísmo.

A INQUISIÇÃO CONTRA CIÊNCIA
Muitos cientistas enfrentaram ameaças da inquisição, entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento. Para escapar dos olhares vigilantes de Roma, Leonardo da Vinci, por exemplo, escondeu seus projetos de todos que o rodeavam, exceto seus discipulos mais próximos. Com a mesma preocupação Nicolau Copérnico deixou de publicar seus estudos sobre astronomia, fazendo a publicação apenas quando estava prestes a morrer.

Os que desafiaram o papado sentiram as diferenças que havia entre a fé católica e a ciência. Em fins do século 17, Giordano Bruno foi executado por suas obras e idéias heréticas, tornando-se o primeiro martir da ciência. Mas o caso mais famoso foi o do italiano Galileu Galilei, considerado o pai da Ciência Moderna. Ele só escapou da morte ao pedir perdão no Vaticano por ter afirmado que a Terra é que girava em torno do Sol, e não o contrário, como afirmava a Igreja até então.

A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL
Portugal vivia a grande aventura mercantilista dos descobrimentos, que dependia do apoio econômico dos comerciantes judeus. A rejeição portuguesa aos judeus partia da população estimulada pela Igreja Católica. A coroa portuguesa sempre tentou contornar a situação dos judeus, abrandando e esfriando os ânimos. Em alguns momentos protegiam-nos, proibindo o constrangimento do batismo obrigatório.

Com a implantação da Inquisição na Espanha, a situação portuguesa se alterou, pois o povo e a igreja julgavam uma afronta um país que não tivesse a Inquisição em seus domínios. Por causa das perseguições, muitos judeus fugiram da Espanha para Portugal, deixando a situação ainda mais delicada e explosiva. Em 1487, D. João II obteve a autorização do papa para punir os marranos (judeus convertidos ao catolicismo) que faltassem com seus deveres católicos. Muitos morreram no fogo.

Apesar de se converterem ao catolicismo os judeus fieis às suas crenças persistiam em não aceitar as ordens da igreja. Durante estes anos vários massacres de judeus aconteceram em Lisboa. Muitos optaram por fugir do país levando seus tesouros, o que prejudicou a economia nacional.

INQUISIÇÃO, O SANTO OFÍCIO NO BRASIL
Embora o Santo Ofício não tenha estabelecido oficialmente um Tribunal no Brasil, os bispos locais tinham poderes para prender e confiscar os bens de suspeitos, enviar prisioneiros ou seus processos a Inquisição em Lisboa. Eventualmente algum padre visitador, membro da Inquisição vinha ao Brasil, e suas investigações concentravam-se em casos envolvendo bruxaria, blasfêmia contra a igreja, além dos novos convertidos ao catolicismo.

A primeira visitação do Santo Ofício que se tem notícia no Brasil foi em 1591, estendeu-se por dois anos. Até 1624, foram processados 245 novos católicos, todos sob a acusação de ainda praticarem o judaísmo. Entre 1649 e 1748, cerca de 18 brasileiros foram condenados à morte pela Inquisição em Lisboa.

O PEDIDO DE PERDÃO DA IGREJA CATÓLICA
No dia 15 de março de 2000, o papa João Paulo II, no documento Memória e Reconciliação: a Igreja e as Culpas do Passado. Agrupou as incorreções e os pecados cometidos pela Igreja no passado, quando levada pelo seu crescente poder temporal, foi intolerante, opressora e até mesmo corrupta. Com mais de 90 páginas, o documento tornou-se a maior demonstração de expiação publica da história do catolicismo romano, pois por meio dele o papa pediu perdão pela série de pecados cometidos desde a origem da Igreja. Entre os diversos pecados citados no documento consta os da intolerância com os dissidentes e guerras religiosas, compreendendo as Cruzadas e a Inquisição.

Religião: Jesus Histórico



Naquela época vivia Jesus, homem sábio, de excelente conduta e virtude reconhecida. Muitos judeus e homens de outras nações converteram-se em seus discípulos. Pilatos ordenou que fosse crucificado e morto, mas aqueles que foram seus discípulos não voltaram atrás e afirmaram que ele lhes havia aparecido três dias após sua crucificação: estava vivo. Talvez ele fosse o Messias sobre o qual os profetas anunciaram coisas maravilhosas", trecho de "Antiguidades Judaicas", de Flavio Josefo, primeiro historiador judeu, ano 95 d.C.
Nenhum outro debate permaneceu durante tanto tempo em voga quanto os que dizem respeito a Jesus de Nazaré. Personagem controverso e questionado por alguns, Jesus permanece como fonte de estudos para pessoas interessadas em sua mensagem espiritual, enquanto outros procuram saber mais sobre a influência que exerceu sobre um elevado número de pessoas na Palestina. Para os Cristãos, ele é o Messias, salvador da humanidade. Já para os muçulmanos, um grande profeta. Enquanto isso, um outro contingente acredita que toda sua pregação não passa de um mito criado por fanáticos religiosos.
Em meio à essas discussões, arqueólogos, teólogos e historiadores buscam encontrar vestígios concretos da época em que Jesus viveu para conhecer mais sobre seus costumes e saber mais sobre o contexto da região. No atual momento das pesquisas, já não se questiona mais a existência de Jesus. Agora, resta saber o que ele, de fato, fazia, como se relacionava com as pessoas e a importância que teve no cenário da Judéia no primeiro século.
"Não é preciso comprovar a existência de Jesus arqueologicamente, pois existem várias evidências históricas. Além da literatura cristã primitiva temos testemunhos do Talmude, um dos textos sagrados do judaísmo, e de Josefo, o primeiro historiador judeu. Do ponto de vista histórico, é mais do que suficiente", explica o teólogo da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), Gabriele Cornelli. "A arqueologia serve para descobrir qual era o contexto econômico, social, financeiro e agrícola da Galiléia. Descobrir, por exemplo, quantas pessoas moravam na região, qual era a ocupação econômica principal e coisas do tipo, para colocar a figura de Jesus no seu berço."
A busca pelo Cristo da história, não somente o apresentado pela religião, tem mostrado que grande parte do que está apontado na Bíblia tem encontrado reflexo na arqueologia. Um ponto comprovado, por exemplo, é o status financeiro da região, bem como a atividade de Jesus e José, descritos como marceneiros pela Bíblia.
"Nessas pesquisas, foi possível descobrir que a Galiléia era uma região pobre e rural. Mas que atravessava um momento de forte expansão urbanística. Portanto, era preciso muita mão de obra", relata Cornelli. "Por conseqüência, de marceneiros. Assim, a informação de que a família de Jesus fosse de marceneiros no interior procede do ponto de vista da migração de trabalhadores da construção."
Outra questão em que se avançou bastante é na relação política entre romanos e judeus à época. Assim, a crise política apontada no polêmico filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson. Na obra, Pilatos se vê indeciso entre atender às exigências de Caifás, o sumo sacerdote, ou libertar Jesus, em quem não vê culpa. Essa divisão é sustentada por estudos que apontam a Judéia como uma região politicamente instável e tida como um provável berço de insurreições contra o domínio de César. Desta forma, negar o clamor por crucificação poderia significar a explosão de uma guerra civil, uma vez que a população estava dividida.
"Vemos na história romana alguns indícios de que a Judéia sempre foi vista como uma região repleta de rebeldes, dispostos a promover uma insurreição a qualquer momento. Todas as províncias romanas tinham o direito de ter um rei próprio, mas Jerusalém e a Judéia perdem essa condição e sofrem intervenção através de um procurador romano. Pilatos foi um desses", detalha o teólogo da Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo), Rodrigo Pereira da Silva. "Nesse aspecto, faz muito sentido a visão do Mel Gibson de que Pilatos temia uma guerra civil. E era provável que isso acontecesse mesmo."

A Paixão de Cristo

Compreendendo melhor o contexto histórico, os pesquisadores têm avançado em eventos considerados mais importantes, como a Paixão de Cristo. Embora ainda muito contestado, algumas descobertas têm servido para esclarecer determinados pontos da crucificação e morte de Jesus de Nazaré. Atualmente já se sabe que, ao contrário do que indicava a lei da época, os romanos abriam algumas exceções para que criminosos condenados à morte por crucificação pudessem ser sepultados por suas famílias. Isso acontecia, principalmente, no caso de famílias ricas (vale lembrar que, segundo a bíblia, foi José de Arimatéia, um rico senador, que solicitou a Pilatos o corpo de Jesus - Marcos 15:43).
Essas confirmações foram fortemente reforçadas em 1968. Após a Guerra dos Seis Dias, foi encontrada uma caixa mortuária de um jovem que teria sido crucificado. "Nesta caixa de pedra estava gravado o nome ´Iohanan, bar Hagagol` (João, filho de Hagagol). Nesse achado, um dos ossos do calcanhar tinha um cravo romano atravessado nele. É o único corpo de alguém crucificado que se encontrou até hoje, porque os demais os romanos jogavam em lixões, pois não tinham direito a sepultamento digno. Esse foi uma das exceções", relata Silva. Essa descoberta também apontou alterações na forma como se imaginava a crucificação, pois demonstrou que o cravo não era transpassado no peito do pé, e sim na lateral do calcanhar.
Os estudos apontaram também os rituais de sepultamento dos judeus do primeiro século. Os mortos não eram sepultados imediatamente. Após seu falecimento, eram lavados, envoltos em um lençol e colocados em uma caverna, onde permaneciam durante anos. "Depois desse período, a pedra era removida, tiravam-se os ossos da pessoa, colocavam em caixas de pedra e elas eram colocadas em uma parede, para economia de espaço. O sepultamento, propriamente dito, era a remoção dos ossos da caverna", explica Silva. O relato da ressurreição de Jesus (e também a de Lázaro) diz respeito a esta fase da caverna.
Ainda assim, alguns pesquisadores contestam os detalhes da crucificação alegando que algumas contradições não permitem que se julgue completamente verdadeiro o martírio. Um fator bastante contestado, por exemplo, é o fato de o julgamento ter sido realizado durante a noite, o que era proibido pelo governo romano. Outra questão é que, segundo o Torá, ninguém poderia ser sacrificado antes da Páscoa.
"Alguns se apegam esses detalhes contra a historicidade do julgamento de Jesus. Mas se isso procedesse, teríamos que anular centenas e centenas de julgamentos que sabemos que não foram justos. Há uma série de julgamentos, o de Sócrates, por exemplo, em que foram quebrados vários direitos dos condenados. De fato, houve muita ilegalidade no julgamento de Jesus, mas isso não desmente que aquilo aconteceu", rechaça Silva, que também é curador do Museu Brasileiro de Arqueologia Bíblica, localizado no interior de São Paulo, próximo à cidade de Campinas.

Fé e razão

A busca de pesquisadores pela história real da bíblia pouco tem a ver, no entanto, com a fé - ou a ausência dela - dos mesmos. Em geral, os arqueólogos e historiadores não pretendem comprovar, ou contestar, a Bíblia. Sua intenção é compreender o mundo atual e os atores que o conduziram a esta condição. "Existem muitas pessoas que falam besteira sobre isso. Se deixam conduzir simplesmente pela questão da fé. Se você acredita na salvação, ok. Mas os estudos histórico-científicos não têm nada a ver com fé", diz Cornelli.
No entanto, é difícil afirmar que os dois fatores são necessariamente exclusivos. "É bom ressaltar que a arqueologia não tem como pressuposto provar a bíblia. Este é um livro que demanda fé e fala de coisas sobrenaturais. Não consigo provar, por exemplo, que Jesus andou sobre as águas. Mas consigo, pelos estudos, confirmar ou desmentir os fatos históricos que ela conta", diz Silva. "A religião é fé. Mas isso também demanda o lado racional. As religiões têm sido desacreditadas por diversas razões. Posso ser racional, trabalhar com método científico, e, com mais certeza, crer no que está escrito na Bíblia e acreditar que ela é a palavra de Deus."

Documentos comprovam existência histórica de Jesus

Além de toda a literatura produzida por seguidores, como os 27 livros do Novo Testamento, documentação produzida por historiadores e governantes contemporâneos atestam a historicidade da existência e missão de Jesus Cristo.
O historiador José Flávio (37-97 d.C.), nascido em Jerusalém, conheceu a primitiva comunidade cristã e, como pertencente à nobreza sacerdotal judaica, ocupou-se criticamente dos seguidores de Jesus. Em sua obra Antigüidades Judaicas, ele afirma que "neste período viveu Jesus, homem sábio (se é possível chamá-lo de homem). Ele fez obras maravilhosas. Ele atraiu a sí muitos judeus e pagãos. E quando, pelas acusações dos nossos homens de prestígio, Pilatos o condenou à crucificação, aqueles que o tinham amado não o abandonaram. Ainda hoje não desapareceu o gênero dos que dele têm o nome de cristãos" (XVIII 3,3).
Plínio, o moço, escreveu ao imperador Trajano no ano 112 para saber como se comportar em relação aos cristãos. Em sua carta explica: "É meu costume, meu senhor, referir a ti tudo aquilo acerca do qual tenho dúvidas... Nunca presenciei a julgamento contra os cristãos... Eles admitem que toda sua culpa ou erro consiste nisso: que usam se reunir num dia marcado antes da alvorada, para cantar hino a Cristo como Deus... Parecia-me um caso sobre o qual devo te consultar, sobretudo pelo número dos acusados... De fato, muitos de toda idade, condição e sexo, são chamados em juízo e o serão. O contágio desta superstição invadiu não somente as cidades, mas também o interior; parece-me que ainda se possa fazer alguma coisa para parar e corrigir... " (Ep. X, 96).
O procurador da Judéia, Públius Lêntulus, dirigiu carta ao Imperador Tiberius César no ano 32, provavelmente a pedido desse, apresentando um retrato falado de Jesus. "''Existe nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente, de grandes virtudes, chamado Jesus"...

(Ler o conteúdo completo da carta)

Religião: Carta de Públius Lêntulus



Carta escrita pelo pretor Publius Lentulus, mais conhecido pelos historiadores como Sura, ao Imperador Tibério Cesar, conforme cópia descoberta nos arquivos do Rei Abgar de Edessa (atual Turquia), o qual, nela baseado mandou pintar o mais antigo retrato conhecido de Jesus, O Mandylion de Edessa.
Talvez seja a única prova das características fisicas de Jesus:

''Existe nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente, de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado profeta da verdade e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, criador do Céu e da Terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus; ressuscita os mortos, cura os enfermos; em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto. Há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou a temê-lo. Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, distendidos até às orelhas e das orelhas até às espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes. Tem no meio da sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos Nazarenos; o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis. A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio; seu olhar é muito especioso e grave; tem os olhos graciosos e claros; o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade. Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele alguém se aproxima, verifica que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza; não se tendo jamais visto, por estas partes, uma donzela tão bela... De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram. Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de tua Majestade. Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde.


Esoterismo: Cristianismo Esotérico



Cristianismo Esotérico é a vertente do Cristianismo composta pelas escolas de mistérios, constituindo o que se conhece como a parte mística do Cristianismo. Trata-se de um segmento minoritário, uma vez que não se dirige às massas nem faz proselitismo, e não é estruturado em igrejas, apesar de a maioria das escolas terem rituais específicos. A este ramo do Cristianismo pertencem o Gnosticismo e o Rosacrucianismo (apesar de muitas organizações com o nome "Rosacruz" não se vincularem ao Cristianismo). Os Essênios são considerados os precursores do Cristianismo Esotérico.

A doutrina

As bases da doutrina cristã esotérica se diferenciam dentro da comunidade cristã especialmente pelo fato de a reencarnação e o evolucionismo constituirem seus pontos-chave. Assim como as demais vertentes cristãs, considera-se a Bíblia e, especialmente os Evangelhos como fontes de autoridade dos mistérios de Deus, mas a Bíblia não é considerada a "palavra de Deus" nem deve ser interpretada literalmente, ou considerá-la à prova de erros. Outras escrituras que não foram incluídas na Bíblia também são amplamente consideradas, entre as quais muitos dos evangelhos apócrifos. Cristo é considerado como o líder da humanidade e governante do Sistema Solar, sendo onipresente assim como Deus, e por isso tendo uma centelha dentro de cada forma vivente (o chamado "Cristo Interno"). É considerado também a única entidade à qual o homem deve se dirigir, rejeitando-se portanto o culto a santos e imagens.

Os cristãos esoteristas advogam que não há inferno ou paraíso, ou, pelo menos, que não sejam eternos. Cada pessoa paga por aquilo que praticou, na exata proporção. A todos é concedida a oportunidade de reencarnação, para o aperfeiçoamento do caráter; e a salvação será dada a toda a humanidade - alguns em mais tempo, outros em menos tempo.

Não existem sacerdotes na hierarquia. As escolas geralmente se compõem de um ou mais instrutores, mas que não ministram qualquer tipo de sacramento. O único sacramento reconhecido é a chamada iniciação, que não ocorre dentro das escolas, mas, segundo afirmam os cristãos esoteristas, é um processo de ordem espiritual, no qual o indivíduo a ser "iniciado", por meio de exercícios de ordem espiritual, consegue tirar a glândula pineal do estado latente e colocar-se em contato direto com os mundos supra-físicos, podendo vê-lo e senti-lo.

A maioria das escolas sustenta que existem nove iniciações menores e quatro iniciações maiores, sendo que nas iniciações maiores o homem adquire o poder da magia, tendo, entre outras faculdades, a de falar todos os idiomas como se fosse nativo e constituir um corpo físico sem passar pelo processo de gestação. Nem todas as iniciações aconteceriam numa mesma encarnação, sendo que poderia haver crianças "excepcionais", de inteligência muito acima da média, que já teria sido iniciada em vidas anteriores.

Conversão

Não há proselitismo religioso dentro do Cristianismo Esotérico. Os membros das escolas cristãs esotéricas entendem que todas as religiões são provenientes de Deus, que as teria apresentado conforme as necessidades espirituais e o nível de evolução de cada povo, embora sustentem que o Cristianismo é a religião preparada para os mais avançados da humanidade, na escala de evolução espiritual. Também não existem impedimentos àqueles que desejarem se converter, desde que a conversão seja por livre e espontânea vontade. Não há juramentos especiais e os convertidos podem livremente manter contato com suas religiões de origem.

Notas históricas

Do ponto de vista do oculto, a tradição Cristã esotérica remonta-se, a si própria, primariamente a uma excelsa e devota Ordem que existiu na Palestina, designada por Essénios. Eles são descritos como um terceiro grupo que existiu para além dos outros dois mencionados no Novo Testamento, os hipócritas Fariseus e os materialistas Saduceus. Os Essénios não são mencionados no Novo Testamento e evitavam qualquer referência a si próprios e aos seus métodos de estudo e de adoração. Jesus, de acordo com a tradição Cristã esotérica, foi um elevado Iniciado educado pelos Essénios, até aos trinta anos de idade, e alcançou um estado muito elevado de desenvolvimento espiritual. É possível que a sua educação haja sido conduzida entre os Essénios Nazarenos de Monte Carmelo, uma comunidade na zona da Galileia.

Os ensinamentos ocultos Cristãos referem que a maior fonte viva da tradição Cristã esotérica, no decorrer do desenvolvimento da civilização ocidental, teve início no século XIV com a constituição de uma irmandade secreta de homens santos designada por Ordem Rosacruz, que se expôs a si mesma pela primeira vez na profunda obra esotérica A Divina Comédia. Esta Ordem abriu a Iniciação nos Mistérios, naquele tempo e nos séculos que se seguiram, aos indivíduos com maior preparação e mérito, qualidades alcançadas por esforço dos próprios. Por volta dessa época começa também a idade da Alquimia, expressando o conhecimentos oculto através de escritos herméticos, do tipo criptográfico, para evitar a perseguição e o mau uso dos ensinamentos sagrados por parte do homem. Nos seus Manifestos do início o século XVII, a Ordem Rosacruz menciona "nós reconhecemo-nos verdadeiramente e sinceramente professar Cristo (...) viciamo-nos na verdadeira Filosofia, levamos uma vida Cristã" (in Confessio Fraternitatis [1], 1615) e estabelece o tempo e o modo como viria a apresentar publicamente ao mundo o seu conhecimento, num esforço para trazer uma "Reforma da Humanidade" através de uma mais avançada fase da religião Cristã. O Cristianismo Rosacruz, começado no início do século XX em 'Monte Ecclesia' [2] relaciona-se a si próprio com este renascimento público da Ordem.

A teosofia Cristã clássica, que precede a Sociedade Teosófica e o Martinismo, inclui alquimistas conhecidos, através dos seus escritos, como estando ligados ao movimento Rosacruz. Entre os Cristãos teosofistas encontramos homens letrados como Valentin Weigel, Heinrich Kunrath, Johann Arndt, Johann Georg Gitchel, Jakob Boehme, Gottfried Arnold, Jan Baptist van Helmont, Robert Fludd, John Pordage, Jane Leade, e Pierre Poiret.

Mais tarde, é especialmente reconhecido Emanuel Swedenborg porque uma igreja seguiu os seus ensinamentos desde 1787. A New Church e a Swedenborgian Church of North America. Martines de Pasqually, Louis-Claude de Saint-Martin e Jean-Baptiste Willermoz são três das mais influentes figuras do Martinismo, que data do início do século XVII e continua a existir até aos dias de hoje.

Outras perspectivas modernas sobre o Cristianismo Esotérico incluem a Ordem Hermética da Aurora Dourada e suas principais ramificações, os Builders of the Adytum, a Society of the Inner Light e os Servants of the Light. Paul Foster Case, W. E. Butler, Dion Fortune e Gareth Knight em particular, são autoridades desses ramos que contribuíram para a literatura dedicada a um Cristianismo Esotérico. Alguns dos modernos neo-Templários e neo-Essénios são também dignos de nota.

Fundamentos Bíblicos

O Caminho: « Ego sum Via, Veritas et Vita »

* Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. (João 14:6)

O Conhecimento Esotérico

* Respondendo, disse-lhes: «A vós é dado a conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado. (Mateus 13:11)

* Disse-lhes: «A vós foi dado a conhecer os mistérios do Reino de Deus; mas aos outros fala-se-lhes em parábolas, a fim de que, vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam.» (Lucas 8:10)

A Vivência Mística (o coração)

* Jesus disse, então, aos discípulos: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (Mateus 16:24)

* Depois, dirigindo-se a todos, disse: «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. (Lucas 9:23)

O Estudo Oculto (a mente)

* e disse: «Em Verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. (Mateus 18:3)

* Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele.» (Marcos 10:15)

[editar] Escritos do século XX

* O mundo ocidental é, sem dúvida, a vanguarda da raça humana e, por motivos que indicaremos nas páginas seguintes, os Rosacruzes sustentam que nem o Judaísmo nem o "Cristianismo Popular", mas sim o verdadeiro Cristianismo Esotérico será a religião mundial. (Max Heindel in Conceito Rosacruz do Cosmos, [3], 1909; Fraternidade Rosacruz)

* Este é o caminho da Sabedoria Divina, da verdadeira teosofia. Ela não é, como alguns pensam, uma versão diluída do Hinduísmo, ou do Budismo, ou do Taoísmo, ou de qualquer religião particular. Ela é tão verdadeiramente Cristianismo Esotérico como é Budismo Esotérico, e pertence igualmente a todas as religiões, e a nenhuma com exclusividade. (Annie Besant in Cristianismo Esotérico ou Os Mistérios Menores [4], 1914; Sociedade Teosófica)

* No Cristianismo, também, especialmente no que concerne ao seu ponto central, o Mistério do Gólgota, nós temos de fazer uma distinção entre concepções exotéricas e conhecimento esotérico. Uma contemplação exotérica do Cristianismo, acessível a todo o mundo, está contida nos Evangelhos. Lado a lado com esta contemplação exotérica, sempre houve um Cristianismo esotérico para aqueles que tinham vontade - como eu disse antes - de preparar os seus corações e mentes de uma forma adequada para a recepção de um Cristianismo esotérico. (Rudolf Steiner, Cristianismo Exotérico e Esotérico [5], 1922, Sociedade Antroposófica)

* Se este doutrina interior foi sempre resguardada das massas, das quais por um código simples foi dividida, não é altamente provável que os expoentes de cada aspecto da civilização moderna--filosóficos, éticos, religiosos, e científicos-sejam ignorantes do verdadeiro significado de todas as teorias e postulados em que as suas crenças são fundadas? Encobrem as artes e ciências que a raça herdou de nações mais antigas por debaixo do seu justo exterior um mistério tão grande que só o mais iluminado intelecto pode alcançar a sua importância? Tal é sem dúvida o caso. (Manly Palmer Hall, Os Ensinamentos Secretos de Todas as Eras [6], 1928, Philosophical Research Society)

Ensaios na actualidade

* Carol E. Parrish-Harra: The Cornerstone of Esoteric Christianity
* Charles Weber: Rosicrucianism and Religion, Christianity
* Jan Skogstrom: Esoteric Christianity - What does it mean? and Some Comparisons Between Exoteric & Esoteric Christianity
* Marie-José Clerc: Christ is the Divine Messenger
* Michael Hoffman: Esoteric/Mystic/Experiential Christianity
* Norman D. Livergood: Esoteric Christianity
* Richard S. Kirby: The Focus of Esoteric Futures


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Esoterismo: Manuscritos de Qumran



Escrevendo em 1949 sobre a exploração da gruta, R. de Vaux acredita que "estes rolos, de idades diferentes, cuidadosamente guardados em vasilhas da mesma época, não são peças abandonadas por acaso, mas um arquivo ou biblioteca escondida em um momento de perigo". E, ao datar a cerâmica e com ela relacionar os manuscritos, acrescenta: "Nenhum documento é posterior aos começos do século I a.C. e alguns deles podem ser mais antigos".

Agora é necessário descobrir quem teria depositado os manuscritos na gruta. O estabelecimento humano mais próximo é representado pelas ruínas de Qumran. R. de Vaux e G. L. Harding fazem assim a primeira expedição de escavações no Khirbet Qumran de 24 de novembro a 12 de dezembro de 1951.

Identificam uma construção retangular de 37 metros de comprimento por 30 metros de largura à qual se ligam outros edifícios e um aqueduto que serve para recolher as águas do Wadi Qumran no inverno.

A cerâmica encontrada é idêntica à de 1Q: isto relaciona os manuscritos com o grupo que vivia em Qumran. O cemitério, com mais de mil túmulos, rigorosamente organizado, também é investigado e nove esqueletos são enviados a Paris para exames técnicos.

Mas as moedas são o achado mais precioso, porque permitem a datação do assentamento humano de Qumran. As dez moedas identificadas inicialmente vão da época de Herodes Magno (37-4 a.C.) à segunda guerra judaica contra Roma (132-135 d.C.).

Entretanto, ainda em 1951, os ta'amireh levam mais fragmentos manuscritos a Jerusalém e os oferecem aos arqueólogos, que os compram. No dia 21 de janeiro de 1952, R. de Vaux e outros arqueólogos seguem até a região do Wadi Murabba'at, situado a 25 km a sudeste de Jerusalém e a cerca de 18 km ao sul de Qumran. Em algumas grutas desta região são encontrados importantes documentos em hebraico, aramaico, grego e latim relacionados, em sua maioria, com a segunda guerra judaica contra Roma (132-135 d.C.) Fica estabelecido que Murabba'at servia de refúgio aos soldados de Simão bar Kosibah, líder do levante, de quem são recuperadas até cartas assinadas.

Enquanto a equipe de R. de Vaux se encontra em Murabba'at, os ta'amireh levam novos manuscritos a Jerusalém, descobertos em outra gruta de Qumran, que será chamada de 2Q. Nela são encontrados 185 fragmentos de pele. Logo em seguida, De Vaux e seu pessoal, em março de 1952, faz um levantamento da falésia, numa extensão de 8 km, explorando 230 grutas. Destas, 37 contêm cerâmica e outros objetos. E a cerâmica é idêntica à das ruínas de Qumran e da primeira gruta.

Na terceira gruta de Qumran são encontrados cerca de 35 jarros e fragmentos de mais ou menos 30 rolos de pele extremamente deteriorados. "Mas o seu conteúdo mais curioso era de cobre: na parte anterior da gruta (...) jaziam dois rolos de cobre com um texto gravado em caracteres hebraicos quadrados, alguns deles em relevo".

Em setembro de 1952 são descobertas as grutas de número 4, 5 e 6. A gruta 4Q é a mais rica de todas: possui fragmentos de cerca de 400 manuscritos.

Na 6Q são encontrados fragmentos do "Documento de Damasco", um manuscrito que fora recuperado em 1897 em uma antiga sinagoga do Cairo e do qual não se sabia quase nada.

Na primavera de 1955 são descobertas as grutas 7Q, 8Q, 9Q e 10Q, e em fevereiro de 1956, a última, a 11Q, com quatro rolos em bom estado de conservação.

As ruínas de Qumran são escavadas em 6 diferentes expedições que se encerram em 1958. Arqueólogos judeus pesquisam também os wadis da região ocidental do Mar Morto entre Engaddi e Massada e encontram importantes documentos.

No total, cerca de mil documentos são recuperados em 20 grutas no deserto de Judá, entre os anos de 1946 e 1966. Além de centenas de óstraca (= cacos de cerâmica com escrita) e inscrições.

Em Khirbet Qumran os arqueólogos identificam um conjunto de construções bastante interessante: oficinas, olaria, despensas, refeitório, cisternas, um "scriptorium" etc. Nenhum fragmento de manuscrito é encontrado nas construções, mas apenas alguns óstraca. E a sua grafia é a mesma dos manuscritos encontrados nas grutas. Também são recolhidas cerâmicas, moedas e outros objetos.

O curioso é que o edifício não tem dormitórios. Ou se dormia em tendas ou nas grutas das redondezas. O estabelecimento agrícola de Ain Feshka, ao sul de Qumran, também é explorado. Ali os essênios manufaturam a palmeira, juncos, sal, betume e cereais. Estes últimos são cultivados numa planície a oeste de Qumran, a Buqea, que mede cerca de 8x4 km.

No total, são recuperados, em 11 grutas de Qumran, 11 manuscritos mais ou menos completos e milhares de fragmentos de mais de 800 manuscritos em pergaminho e papiro. Escritos em hebraico, aramaico e grego, cerca de 225 manuscritos são cópias de livros bíblicos, sendo o restante livros apócrifos, trabalhos exegéticos e escritos da comunidade que vive em Qumran.

Todos os manuscritos são anteriores ao ano 68 d.C., quando Qumran é destruído. Os mais antigos são anteriores à instalação da comunidade que vive em Qumran e remontam ao século III a.C. O mais antigo é o 4QExf, datado em torno de 250 a.C. O teste do Carbono 14 chega à data de 33 a.C. com 200 anos para mais ou para menos.

O método do Carbono 14, descoberto em 1947, é aplicado em 1950-51 a um pedaço de linho que envolve os manuscritos. Não é possível aplicá-lo diretamente aos manuscritos porque exige a destruição de 1 a três gramas de material.

Mais recentemente, em 1990, 14 manuscritos são submetidos ao teste AMS (= Accelerator Mass Spectrometry), ou Espectrometria com Acelerador de Massa, técnica de datação descoberta em 1987. O material orgânico necessário para o AMS é de apenas 0,5 a 1,0 miligrama. Dos 14 manuscritos testados, 4 não são de Qumran e estão datados com segurança através de outros métodos: isto é necessário para se checar a veracidade dos resultados. E os resultados confirmam, com certa segurança, a datação feita através de outros métodos como a paleografia. Com certeza nenhum dos manuscritos de Qumran foi copiado após 68 d.C

São recuperados manuscritos e fragmentos de quase todos os livros bíblicos judaicos, pois só falta Ester.

O Pentateuco está muito bem representado em Qumran, pois há 15 manuscritos fragmentados do Gênesis, 15 do Êxodo, 9 do Levítico, 6 de Números e 25 do Deuteronômio. São 70 manuscritos. Estes manuscritos ligam-se a três tradições textuais:

a) à do texto massorético (TM)

b) à do original hebraico a partir do qual é traduzida a LXX

c) à do Pentateuco samaritano.

A parte da Bíblia que hoje conhecemos como Obra Histórica Deuteronomista (OHDtr.), composta pelos livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis está pouco presente em Qumran, num total de apenas 12 manuscritos.

Os arqueólogos recuperam apenas fragmentos de 2 manuscritos de Josué, 3 de Juízes, 3 de Samuel e 4 de Reis. O grande interesse desses manuscritos para os estudiosos é que eles estão bem mais próximos do texto hebraico usado para a tradução da LXX do que do texto massorético.

Dos profetas são encontrados 18 manuscritos: 2 de Isaías - um quase completo (1QIsa) e outro com uma parte apenas (1QIsb) - 4 de Jeremias, 6 de Ezequiel e 8 dos doze profetas menores.

Os textos de Isaías são próximos ao TM, assim como os de Ezequiel e dos profetas menores, mas um manuscrito de Jeremias, 1QJrb, traz o mesmo texto da LXX. E isso é importante, pois o Jeremias da LXX é bem mais curto do que o do TM. Este é resultado de uma ampliação posterior, enquanto o que serve de base para a LXX é mais sóbrio.

1QIsa é um rolo quase completo de Isaías, datando da primeira metade do séc. I a.C.

1QIsb está mal conservado e contém apenas Is 38-66 e trechos de outros capítulos.

É da última metade do séc. I a.C.

Quanto à última parte da Bíblia Hebraica, os Escritos, são recuperados em Qumran restos de cerca de 66 manuscritos. Os Salmos estão bem representados com 30 manuscritos, Daniel está em 8 e assim por diante. Na gruta 4 são recuperados fragmentos do original aramaico de Tobias, até então perdido, e textos muito próximos à época de composição dos originais como 4QEcla e 4QDna, respectivamente, cerca de cem e cinquenta anos após a escrita dos livros do Eclesiastes e de Daniel.

Ester não é encontrado. Como esse livro é muito bem aceito pelos Macabeus, isto deve ter provocado sua rejeição pela comunidade de Qumran, inimiga daqueles governantes.

No conjunto, são cerca de 225 manuscritos ou fragmentos de livros bíblicos. Sua importância para a história do texto do AT é grande, já que testemunham as várias tradições existentes antes da unificação feita pelos rabinos de Jâmnia nos anos 90 da era cristã.


Outra área bastante interessante dos manuscritos de Qumran é a dos livros apócrifos.

Na gruta 1 são encontradas 22 colunas de um Gênesis Apócrifo (1QapGn), em aramaico, que narra a história de Gn 5,28-15,4, isto é, de Lamec a Abraão, com embelezamentos midrashicos. Pode ser datado entre o II e o I séculos a.C.

Vários fragmentos da gruta 1 testemunham a existência de um Livro de Noé. Na gruta 4 há fragmentos de 5 manuscritos de um Testamento de Amram (Amram é neto de Levi, segundo a Bíblia), sete fragmentos de um Samuel Apócrifo (4Q160) etc.

Religião: Mentiras da Igreja Católica



Pepe Rodríguez nos desvela nesta magnífica obra as entranhas da Igreja Católica, de que modo, com o passar do tempo, mal interpretaram as sagradas escrituras em benefício e lucro de uma instituição que longe de divulgar fielmente os ensinamentos de Jesus os perverteram para encher suas arcas.

O autor nos demonstra, após uma exaustiva investigação, que aqueles supostos guardiões da palavra de Jesus a transformaram, obrigando de maneira sutil e enganosa muitos fiéis laicos e clérigos a crer na postura do “celibato” como estado ideal para a concepção do divino no ser humano. No entanto, evidentemente, segundo a exposição de Pepe Rodríguez, a idéia do celibato não é apoiada pelos Evangelhos nem muito menos pelo próprio Jesus.

Mostra também o espinhoso tema das más formações psicopatológicas sofridas pelos sacerdotes por estarem obrigados a reprimir a necessidade de uma sexualidade normal.

E se destapam os motivos pelos quais a Igreja Católica prefere manter uma postura tão distante do Cristianismo como a do celibato, ainda que isto pressuponha: danar a saúde mental dos seus clérigos, prejudicá-los no seu desenvolvimento emocional e impulsioná-los muitas vezes a cometer atos “sexuais” delitivos contra menores e adultos.

Capítulo I
COMO A IGREJA CATÓLICA MAL INTERPRETOU DE FORMA INTERESSADA O NOVO TESTAMENTO PARA PODER IMPÔR SUA VONTADE ABSOLUTA SOBRE O POVO E O CLERO


A hermenêutica bíblica atual garante absolutamente a tese de que Jesus não instituiu praticamente nada e menos ainda qualquer modelo determinado de Igreja. Pelo contrário, os textos do Novo Testamento oferecem diversas possibilidades na hora de estruturar uma comunidade eclesial e seus ministérios sacramentais. (1)

Segundo os Evangelhos, Jesus só citou a palavra «igreja» em duas ocasiões e em ambas se referia à comunidade de crentes, jamais a uma instituição atual ou futura. Mas a Igreja Católica empenha-se em manter a falácia de que Cristo foi o instaurador de sua instituição e de preceitos que não são senão necessidades jurídicas e econômicas de uma determinada estrutura social, conformada a golpes de decreto no decorrer dos séculos.

Assim, por exemplo, instituições organizativas como o episcopado, o presbiterado e o diaconato, que começaram a formar-se nos fins do século II, foram defendidas pela Igreja como dadas “por instituição divina” (fundadas por Cristo) (2), até que no Concílio de Trento, em meados do século XVI, foi mudada habilmente sua origem e passaram a ser «por disposição divina» (por arranjo, por evolução progressiva inspirada por Deus). E, finalmente, a partir do Concílio Vaticano II (documentos Gaudium et Espes, e Lumen Gentium), na segunda metade do século XX, a estrutura hierárquica da Igreja já não tem suas raízes no divino senão que procede “do antigo” (é uma mera questão estrutural que se tornou costume).

São muitas as interpretações errôneas dos Evangelhos que a Igreja Católica realizou e sustentou veementemente ao longo de toda sua história. Erros que, em geral, devem atribuir-se antes à malícia e ao cinismo e não à ignorância - nada depreciável, por outro lado -, já que, não por acaso, todos eles resultaram imensamente benéficos para a Igreja em seu afã de acumular dinheiro e poder. Mas neste capítulo vamos ocupar-nos só de duas mistificações básicas: a que corresponde ao conceito da figura do sacerdote e a que transformou o celibato numa lei obrigatória para o clero.

Os fiéis católicos levam séculos crendo de olhos fechados na doutrina oficial da Igreja que apresenta o sacerdote como um homem diferente dos outros - e melhor que os laicos -, “especialmente eleito por Deus” através de sua vocação, investido pessoal e permanentemente de sacro e exclusivo poder para oficiar os ritos e sacramentos, e chamado para ser o único mediador possível entre o ser humano e Cristo. Mas esta doutrina, tal como sustentam muitos teólogos, entre eles José Antonio Carmona (3), nem é de fé, nem tem suas origens além do século XIII ou finais do XII.

A Epístola aos Hebreus (atribuída tradicionalmente a São Paulo) é o único livro do Novo Testamento no qual se aplica a Cristo o conceito de sacerdote – hiereus -(4), mas se emprega para significar que o modelo de sacerdócio levítico já não faz sentido a partir de então. “Tu [Cristo] és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec - se diz em Heb 5,6 -, não segundo a ordem de Aarão”.

Outros versículos - Heb 5,9-10 e 7,22-25 - também deixam assentado que Jesus veio a abolir o sacerdócio levítico, que era tribal - e de casta (pessoal sacro), dedicado ao serviço do templo (lugar sacro) para oferecer sacrifícios durante as festas religiosas (tempo sacro) -, para estabelecer uma fraternidade universal que rompesse a linha de poder que separava o sacro do profano (5). E em textos como o Apocalipse - Ap 1,6; 5,10; 20,6 -, ou a I Epístola de São Pedro - IPe 2,5 - o conceito de hiereus/sacerdote já se aplica a todos os batizados, a cada um dos membros da comunidade de crentes em Cristo, e não aos ministros sacros de um culto.

A concepção que a primitiva Igreja cristã tinha de si mesma - ser “uma comunidade de Jesus”- foi amplamente ratificada durante os séculos seguintes. Assim, no Concílio de Calcedônia (451), seu cânon (6) era taxativo ao estipular que “ninguém pode ser ordenado de maneira absoluta –apolelymenos - nem sacerdote, nem diácono (...) se não lhe foi atribuído claramente uma comunidade local”. Isso significa que cada comunidade cristã elegia um de seus membros para exercer como pastor e só então podia ser ratificado oficialmente mediante a ordenação e imposição de mãos. O contrário, que um sacerdote lhes viesse imposto desde o poder institucional como mediador sacro, é absolutamente herético (6) (selo que, estrito sensu, deve ser aplicado hoje às fábricas de curas que são os seminários).

Nos primeiros séculos do cristianismo, a eucaristia, eixo litúrgico central desta fé, podia ser presidida por qualquer varão - e também por mulheres - mas, progressivamente, a partir do século V, o costume foi cedendo a presidência da missa a um ministro profissional, de modo que o ministério sacerdotal começou a crescer sobre a estrutura sócio-administrativa que se denomina a si mesma sucessora dos apóstolos - mas que não se baseia na apostolicidade evangélica e muito menos na que propõe o texto joanino - em lugar de fazê-lo a partir da eucaristia (sacramento religioso). E daquelas poeiras vêm as atuais lamas.

No Concílio III de Latrão (1179), que também pôs os alicerces da Inquisição, o papa Alexandro III forçou uma interpretação restringida do cânon de Calcedônia e mudou o original titulus ecclesiae -ninguém pode ser ordenado se não é para uma igreja concreta que assim o demande previamente - pelo beneficium - ninguém pode ser ordenado sem um benefício (salário da própria Igreja) que garanta seu sustento-. Com este passo, a Igreja traía absolutamente o Evangelho e, ao priorizar os critérios econômicos e jurídicos sobre os teológicos, dava o primeiro passo para assegurar para si a exclusividade na nomeação, formação e controle do clero.

Pouco depois, no Concílio IV de Latrão (1215), o papa Inocêncio III fechou o círculo ao decretar que a eucaristia já não podia ser celebrada por ninguém que não fosse “um sacerdote válida e licitamente ordenado”. Havia nascido os exclusivistas do sacro, e isso incidiu muito negativamente na mentalidade eclesiástica futura que, entre outros despropósitos, coisificou a eucaristia - despojando-a do seu verdadeiro sentido simbólico e comunitário - e acrescentou ao sacerdócio uma enfermiça - ainda que muito útil para o controle social - potestade sacro-mágica, que serviu para enquistar até hoje seu domínio sobre as massas de crentes imaturos e/ou incultos.

O famoso Concílio de Trento (1545-1563), profundamente fundamentalista - e por isso tão querido para o papa Wojtyla e seus ideólogos mais expressivos, leia-se Ratzinger e Opus Dei -, em sua seção 23, referendou definitivamente esta mistificação, e a chamada escola francesa de espiritualidade sacerdotal, no século XVII, acabou de criar o conceito de casta do clero atual: sujeitos exclusivamente sacros e forçados a viver segregados do mundo laico.

Este movimento doutrinário, que pretendia lutar contra os vícios do clero de sua época, desenvolveu um tipo de vida sacerdotal similar à monacal (hábitos, horas canônicas, normas de vida estritas, tonsura, segregação, etc.), e fez com que o celibato passasse a ser considerado de direito divino e, portanto, obrigatório, dando o ajuste definitivo ao édito do Concílio III de Latrão, que o considerava uma simples medida disciplinar (passo já muito importante por si porque rompia com a tradição dominante na Igreja do primeiro milênio, que considerava o celibato como uma opção puramente pessoal).

O papa Paulo VI, no Concílio Vaticano II, quis remediar o abuso histórico da apropriação indevida e exclusiva do sacerdócio por parte do clero, quando, na encíclica Lumen Gentium, estabeleceu que “todos os batizados, pela regeneração e unção do Espírito Santo, são consagrados como casa espiritual e sacerdócio santo (...). O sacerdócio comum dos crentes e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, ainda que diferem em essência e não só em grau, no entanto se ordenam um ao outro, pois um e outro participam, cada um a seu modo, do único sacerdócio de Cristo”.

Em síntese - embora seja entrar numa chave teológica muito sutil, mas fundamental para todo católico que queira saber de verdade que posição ocupa dentro desta Igreja autoritária -, o sacerdócio comum (próprio de cada batizado) pertence à koinonía ou comunhão dos fiéis, sendo por isso uma realidade substancial, essencial, da Igreja de Cristo. Enquanto o sacerdócio ministerial, como tal ministério, pertence à diakonía ou serviço da comunidade, não à essência da mesma. Neste sentido, o Vaticano II restabeleceu a essência de que o sacerdócio comum, consubstancial a cada batizado, é o fim, enquanto o sacerdócio ministerial é um meio para o comum. O domínio autoritário do sacerdócio ministerial durante o último milênio, tal como é evidente para qualquer analista, tem sido a base da tirânica deformação dogmática e estrutural da Igreja, da perda do sentido eclesial tanto entre o clero como entre os crentes, e dos intoleráveis abusos que a instituição católica tem exercido sobre o conjunto da sociedade em geral e sobre o próprio clero em particular. Mas, como é evidente, o pontificado de Wojtyla e seus assistentes lutaram mortalmente para ocultar de novo esta proposta e reinstauraram as falácias trentinas que mantêm todo o poder sob as sotainas.

Dada a falta de legitimação que tem o conceito e as funções (exclusivas) do sacerdócio dominante até hoje no seio da Igreja Católica, repassaremos também, brevemente, a absoluta falta de justificativa evangélica que apresenta a lei canônica do celibato obrigatório.

No Concílio Vaticano II, Paulo VI - que não se atreveu a restabelecer a questão do celibato tal como solicitaram muitos membros do sínodo - assumiu a doutrina tradicional da Igreja ao deixar determinado - em (PO 16) - que “exorta também este sagrado Concílio a todos os presbíteros que, confiados na graça de Deus, aceitaram o sagrado celibato por livre vontade a exemplo de Cristo7, a que, abraçando-o magnanimamente e de todo coração e perseverando fielmente neste estado, reconheçam este preclaro dom, que lhes foi feito pelo Pai e tão claramente é exaltado pelo Senhor (Mt 19,11), e tenham também ante os olhos os grandes mistérios que nele se representam e cumprem”.

À primeira vista, na própria redação deste texto reside sua refutação. Se o celibato é um estado tal como se afirma, isto é, uma situação ou condição legal na que se encontra um sujeito, igualmente o será o matrimônio e ambos, quanto a estados, podem e devem ser optados livremente por cada indivíduo, sem imposições nem ingerências externas.

Em segundo lugar, o celibato não pode ser um dom ou carisma, tal como se diz, já que, do ponto de vista teológico, um carisma é dado sempre não para o proveito de quem o recebe mas para o da comunidade a qual este pertence. Assim, os dons bíblicos de cura ou de profecia, por exemplo, eram outorgados para curar ou para guiar a outros, mas não podiam ser aplicados em benefício próprio.

Se o celibato fosse um dom ou carisma, sê-lo-ia para ser dado em benefício de toda a comunidade de crentes e não só para uns quantos privilegiados, e é bem sabido que resulta uma falácia argumentar que o celibatário tem maior disponibilidade para ajudar os outros. O matrimônio, por outro lado, sim que é dado para contribuir ao mútuo benefício da comunidade.

Em todo caso, finalmente, em nenhuma das listas de carismas que transmite o Novo Testamento - Rom 12,6-7; 1 Cor 12,8-10 ou Ef 4,7-11- cita-se o celibato como tal. Logo, não é nenhum dom ou carisma por mais que a Igreja assim pretenda.

A pretendida exaltação do celibato pelo Senhor, citada nos versículos 19,10 do Evangelho de São Mateus, deve-se, com toda probabilidade, a uma exegese errônea dos mesmos, originada em uma tradução incorreta do texto grego (primeira versão que se tem de seu original hebreu), cometida ao fazer sua versão latina Vulgata.

Segundo Mt 19,10 Jesus está respondendo uns fariseus que lhe perguntaram sobre o divórcio, e ele afirma a indissolubilidade do matrimônio (como meta a conseguir, como a perfeição à que deve tender-se, não como mera lei a impor), à qual os fariseus lhe opõem a Lei de Moisés, que permite o divórcio, e ele responde: (8)

“Moisés por causa da dureza de vossos corações vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas ao princípio não foi assim. Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério. Os discípulos lhe replicaram: Se assim é a situação do homem relativamente à mulher, não convém casar. Mas ele lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido (ou pántes joroúsin ton lógon toúton, all’hois dédotail). Há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe, e há eunucos que foram castrados pelos homens, e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus. Quem pode receber isso, receba-o”.

Neste texto, que aporta matizes fundamentais que não aparecem na clássica Vulgata, quando Jesus afirma que “nem todos podem receber esta palavra” e “quem pode receber isso, receba-o”, está referindo-se ao matrimônio e não ao celibato, tal como tem sustentado até o presente a Igreja. As palavras ton lógon toúton referem-se, em grego, ao que antecede (a dureza do matrimônio indissolúvel, que faz os discípulos expressar que não vale a pena casar-se), não ao que vem depois. O que se afirma como um dom é o matrimônio, não o celibato e, portanto, contrário à crença eclesial mais habitual, não exalta a este sobre aquele, mas o contrário. (9)

A famosa frase “há os que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus”, tomada pela Igreja como a prova da recomendação ou conselho evangélico do celibato, nunca pode ser interpretada assim por dois motivos: o tempo verbal de um conselho desta natureza, e dado nesse contexto social, sempre deve ser o futuro, não o passado ou presente, e o texto grego está escrito no tempo passado. E, finalmente, dado que toda a frase referida aos eunucos está no mesmo contexto e tom verbal também deveria tomar-se como “conselho evangélico” a castração forçada (“há eunucos que foram castrados pelos homens”), coisa que, evidentemente, seria uma estupidez.

É óbvio, portanto, que não existe a menor base evangélica para impor o celibato obrigatório ao clero. Os primeiros regulamentos que afetam a sexualidade - e subsidiariamente o matrimônio/celibato dos clérigos – foram produzidos quando a Igreja, da mão do imperador Constantino, começa a se organizar como um poder sociopolítico terreno. Quanto mais séculos iam passando e mais se manipulavam os Evangelhos originais, mais força foi cobrando a questão do celibato obrigatório. Uma questão chave, como veremos, para dominar facilmente a massa clerical.

Até o Concílio de Nicéia (325) não houve decreto legal algum em matéria de celibato. No cânon 3 estipulou-se que “o Concílio proíbe, com toda a severidade, os bispos, sacerdotes e diáconos, ou seja, todos os membros do clero, de ter consigo uma pessoa do sexo oposto, a exceção de mãe, irmã ou tia, ou bem de mulheres das que não se possa ter nenhuma suspeita”, mas neste mesmo Concílio não se proibiu que os sacerdotes que já estivessem casados continuassem levando uma vida sexual normal.

Decretos similares foram somando-se ao longo dos séculos - sem conseguir que uma boa parte do clero deixasse de ter concubinas - até chegar a onda repressora dos concílios lateranenses do século XII, destinados a estruturar e fortalecer definitivamente o poder temporário da Igreja. No Concílio I de Latrão (1123), o papa Calixto II condenou novamente a vida em casal dos sacerdotes e avaliou o primeiro decreto explícito obrigando o celibato. Pouco depois, o papa Inocêncio II, nos cânones 6 e 7 do Concílio II de Latrão (1139), incidia na mesma linha - como seu sucessor Alejandro III no Concílio III de Latrão (1179) - e deixava perfilada já definitivamente a norma disciplinar que daria lugar à atual lei canônica do celibato obrigatório... que a maioria dos clérigos, na realidade, continuou sem cumprir.

Tão habitual era que os clérigos tivessem concubinas que os bispos acabaram por instaurar o chamado rendimento de putas, que era uma quantidade de dinheiro que os sacerdotes tinham que pagar para o seu bispo cada vez que transgrediam a lei do celibato. E era tão normal ter amantes que muitos bispos exigiram o rendimento de putas de todos os sacerdotes de sua diocese, sem exceção. E os que defendiam sua pureza foram obrigados a pagar também, já que o bispo afirmava que era impossível não manter relações sexuais de algum tipo.

A esta situação tentou pôr limites o tumultuoso Concílio de Basiléia (1431-1435), que decretou a perda dos rendimentos eclesiásticos aos que não abandonassem suas concubinas após ter recebido uma advertência prévia e de ter sofrido uma retirada momentânea dos benefícios.

Com a celebração do Concílio de Trento (1545-1563), o papa Paulo III - protagonista de uma vida dissoluta, favorecedor do nepotismo em seu próprio pontificado, e pai de vários filhos naturais - implantou definitivamente os éditos disciplinares de Latrão e, além disso, proibiu explicitamente que a Igreja pudesse ordenar varões casados. (10)

Enfim, anedotas à parte, desde a época dos concílios de Latrão até hoje nada substancial mudou a respeito de uma lei tão injusta e sem fundamento evangélico - e por isso qualificável de herética - como é a que decreta o celibato obrigatório para o clero.

O papa Paulo VI, em sua encíclica Sacerdotalis Coelibatus (1967), não deixou lugar a dúvidas quando assentou doutrina com este teor:

• «O sacerdócio cristão, que é novo, não se compreende senão à luz da novidade de Cristo, pontífice supremo e pastor eterno, que instituiu o sacerdócio ministerial como participação real de seu único sacerdócio» (núm. 19)
• “O celibato é também uma manifestação de amor à Igreja” (núm. 26)
• “Desenvolve a capacidade para escutar a palavra de Deus e dispõe à oração. Prepara o homem para celebrar o mistério da eucaristia” (núm. 29)
• “Dá plenitude à vida» (núm. 30)
• «É fonte de fecundidade apostólica” (núm. 31-32).

Com o exposto até aqui, e com o que veremos no resto deste livro, demonstraremos, sem lugar a dúvidas, que todas estas manifestações de Paulo VI, em sua famosa encíclica, não se ajustam em absoluto à realidade na qual vive a imensa maioria do clero católico.

“Como sacerdote - explica o teólogo e cura casado Josep Camps (11) -, tive que viver muito de perto - em alguns casos tendo-as praticamente em minhas mãos - terríveis crises pessoais de muitos colegas e amigos. Um deles, um professor prestigiado de uma ordem religiosa muito destacada, confessou-me que esteve dez anos angustiado antes de se decidir por confessar a si mesmo que desejava abandonar o celibato. No decorrer de uns três anos celebrei as bodas de sete sacerdotes amigos, até chegar no ponto de sentir-me o “casacuras” oficial. E recusei em várias ocasiões propostas para casar “por baixo dos panos” e sem dispensa algum sacerdote que desejava legalizar sua situação e deixar o ministério”.

“Simultaneamente, certa aproximação e interesse por temas de psicologia e psiquiatria alertou-me e começou a me preocupar. Não me pesava demasiado um celibato vivido e querido - embora não fosse nada fácil mantê-lo - por uma decisão livre e constantemente renovada, mas comecei a me questionar sua imposição administrativa a uma só categoria de cristãos... porque é sabido que os sacerdotes de ritos orientais católicos podem casar-se, e o mesmo cabe dizer dos ministros das Igrejas surgidas da Reforma protestante”.

“Em pleno fragor do que a Igreja chama de “deserções” de sacerdotes com fins, entre outros, matrimoniais -, apareceu, em 1967, a encíclica de Paulo VI, Sacerdotalis Coelibatus. Havia chegado, para mim, o momento de aclarar todo este assunto do celibato”.

“O texto da encíclica é um belo panegírico, sábio e profundo, da virgindade consagrada a Deus, que faz parte dos chamados tradicionalmente “conselhos evangélicos” (por mais que se encontre apenas rastro deles nos evangelhos). Só que ao chegar ao ponto, para mim chave, das razões pelas que se exige o celibato aos sacerdotes seculares, a encíclica perde piso e se afunda estrondosamente: não há verdadeiras razões, só a “secular tradição da Igreja latina”, ou seja, nada. A encíclica matou em mim a idéia do celibato - obrigado, Paulo VI! - e desisti dele. Em teoria, claro, porque não tinha pressas nem especiais urgências, nem tinha aparecido ainda a pessoa com quem estabelecer uma relação profunda e séria.”

A Igreja Católica, ao longo de sua história, falseou em benefício próprio tudo aquilo que lhe interessou. Tem imposto sobre o povo um modelo de sacerdote (e de seu ministério) mistificado e cínico, mas lhe foi de grande utilidade para fortalecer seu domínio sobre as consciências e as carteiras das massas.

E, do mesmo modo, tem imposto sobre seus trabalhadores pesos sacros que não lhes correspondem, e leis injustas e arbitrárias, como a do celibato obrigatório, que servem fundamentalmente para criar, manter e potenciar a submissão, o servilismo e a dependência do clero a respeito da hierarquia.

“O celibato dos pastores deve ser opcional - afirma o sacerdote casado Julio Pérez Pinillos -, já que o celibato imposto, além de empobrecer o caráter de “Símbolo”, é um dos pilares que sustenta a organização piramidal da Igreja-aparelho e potencia o binômio clérigos-laicos, tão empobrecedor para os primeiros como humilhante para os segundos”. (12)

Neste final de século, quando muitíssimos teólogos de prestígio alçaram sua voz contra as interpretações doutrinárias errôneas e as atitudes lesivas que comportam, o papa Wojtyla os calou com a publicação de uma encíclica tão autoritária, sectária e lamentável como é a Veritatis Splendor. Esplendor da verdade? De que verdade? A mentalidade de Latrão e Trento volta a governar a Igreja. Correm maus tempos para o Evangelho cristão.

Capítulo II
A LEI DO CELIBATO, OBRIGATÓRIO
CATÓLICO: UMA QUESTÃO DE CONTROLE,
ABUSO DE PODER E ECONOMIA


“O motivo verdadeiro e profundo do celibato consagrado - deixa estabelecido o Papa Paulo VI, em sua encíclica Sacerdotalis Coelibatus (1967 ) - é a eleição de uma relação pessoal mais íntima e mais completa com o mistério de Cristo e da Igreja, pelo bem de toda a humanidade. Nesta eleição, os valores humanos mais elevados podem certamente encontrar sua mais alta expressão”.

E o artigo 599 do Código de Direito Canônico, com linguagem sibilina, impõe que “o conselho evangélico de castidade assumido pelo Reino dos Céus, enquanto símbolo do mundo futuro e fonte de uma fecundidade mais abundante num coração não dividido, leva consigo a obrigação de observar perfeita continência no celibato”.

No entanto, a Igreja Católica, ao transformar um inexistente “conselho evangélico” em lei canônica obrigatória - que, como já vimos no capítulo anterior, carece de fundamento neotestamentário -, ficou anos-luz de potenciar o que Paulo VI resume como “uma relação pessoal mais íntima e mais completa com o mistério de Cristo e da Igreja, pelo bem de toda a humanidade”.

Pelo contrário, o que sim tem conseguido a Igreja com a imposição da lei do celibato obrigatório é criar um instrumento de controle que lhe permite exercer um poder abusivo e ditatorial sobre seus trabalhadores, e uma estratégia basicamente economicista para baratear os custos de manutenção de sua planilha sacro trabalhista e, também, para incrementar seu patrimônio institucional, pelo que, evidentemente, a única «humanidade» que ganha com este estado de coisas é a própria Igreja Católica.

A lei do celibato obrigatório é uma mais entre as notáveis vulnerações dos direitos humanos que a Igreja Católica vem cometendo desde séculos, por isso, antes de começar a tratar as premissas deste capítulo, será oportuno dar entrada à opinião de Diamantino Garcia, presidente da Associação Pró-Direitos Humanos de Andaluzia, membro destacado do Sindicato de Operários do Campo, sacerdote a vinte e seis anos, e pároco dos povos sevilhanos dos Corrales e de Martín da Jara.

Continuará...


1. Cfr., por exemplo, os diversos modelos eclesiásticos de Jerusalém, Antioquia, Corinto, Éfeso, Roma, as comunidades Joaninas, as das Cartas Pastorais, Tessalônica, Colossas...

2. Nos três primeiros séculos não são reconhecidas como tais. São Jerônimo, por exemplo, um dos principais padres da Igreja e tradutor da Vulgata (a Bíblia em sua versão em latim), jamais as aceitou como de instituição divina e, com maior razão, nunca se deixou ordenar bispo. Dado que nos Evangelhos só se fala de diaconato e presbiterado, São Jerônimo defendia que ser bispo equivalia a estar fora da Igreja (entendida no seu significado autêntico e original de Eclésia ou assembléia de fiéis).

3. Cfr. Carmona Brea, J.A. (1994). Os sacramentos: símbolos do encontro. Barcelona: Edições Ángelus, capítulo VII.

4. Hiereus é o termo que se empregava no Antigo Testamento para denominar os sacerdotes da tradição e os das culturas não judias. Seu conceito é inseparável das noções de poder e de separação entre o sagrado e o profano (valha como exemplo, para os que desconhecem a história antiga, o modelo dos sacerdotes egípcios ou dos diferentes povos da Mesopotâmia).

5. «Porque o homem é o templo vivo (não há espaço sagrado), para oferecer o sacrifício de sua vida (toda pessoa é sagrada), em oferenda constante ao Pai (não há tempos sagrados)», argumenta o teólogo José Antenio Carmona.

6. E assim o qualificavam padres da Igreja como Santo Agostinho em seus escritos (cfr. Contra Ep. Parmeniani II, 8).

7. Ou “Quem pode receber isto, receba-o”. Na Bíblia católica de Nácar-Colunga, ao contrário se diz: “Disseram-lhe seus discípulos: Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar. Ele lhes contestou: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido. Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o”. Existe uma diferença abismal entre o “ser capaz de recebê-lo” do texto original e o “ser capaz de entendê-lo” do falaz texto católico, as implicações teológicas e legislativas que se desprendem de um e outro são também diametralmente opostas.

8. Isto, lógica e indubitavelmente, deve ser assim, já que, do ponto de vista sociocultural, dado que Jesus era um judeu fiel à Lei, tal como já mencionamos, jamais podia antepor o celibato ao matrimônio: a tradição judia obriga todos ao matrimônio, enquanto despreza o celibato.

9. A respeito da castração no âmbito da hierarquia eclesial, convém recordar aqui, por exemplo, que o grande teólogo Orígenes castrou a si mesmo - interpretando de forma patológica a frase de Jesus: “Se tua mão ou teu pé te escandalizar, corta-o e atira-o para longe de ti: melhor te é entrar na vida coxo ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno” (Mt 18,8) -, talvez porque seu “membro causador de escândalo” lhe

10. A ordenação sacerdotal de varões casados tinha sido uma prática normalizada dentro da Igreja até o concílio de Trento. Atualmente, devido à escassez de vocações, muitos prelados - especialmente do terceiro mundo defendem de novo esta possibilidade e solicitaram repetidamente ao papa Wojtyla que facilite a instituição do viriprobati (homem casado que vive com sua esposa como irmãos) e seu acesso à ordenação. Mas Wojtyla a descartou pública e repetidamente - atribuindo sua petição a uma campanha de “propaganda sistematicamente hostil ao celibato” (Sínodo de Roma, outubro de 1990)-, apesar de que ele mesmo, em segredo, autorizou ordenar varões casados em vários países do terceiro mundo. No mesmo Sínodo citado, Aloísio Lorscheider, cardeal de Fortaleza (Brasil), desvelou o segredo e aportou dados concretos sobre a ordenação de homens casados autorizados por Wojtyla. Causou uma agonia que hoje deve soar muito ridículo ao clero católico, cujo 60% mantêm relações sexuais apesar de seu celibato oficial. Por outra parte, até o século passado, na corte papal se concedia um lugar de privilégio aos famosos castratí, cantores, selecionados entre os coros das igrejas, que foram castrados sendo ainda meninos para que conservassem uma voz com tons e matizes impossíveis para qualquer varão adulto. Esses sim eram autênticos eunucos pelo reino dos céus!

11. Cfr. Santa Sede (194). Código de Direito Canônico. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, PP. 273-275.

12. Segundo os últimos dados oficiais da Igreja, disponíveis em 1990, só houve trinta sacerdotes diocesanos matriculados em faculdades, de estudos civis, isso é um 0,14% do total de sacerdotes. A este respeito, resulta muito ilustrador saber que o Código de Direito Canônico que esteve vigente entre 1917 e 1983 em seu cânon 129 ordenava: “Os clérigos, uma vez ordenados sacerdotes, não devem abandonar os estudos, principalmente os sagrados. E nas disciplinas sagradas seguirão a doutrina sólida recebida dos antepassados e comumente aceita pela Igreja, evitando as profanas novidades de palavras e a falsamente chamada ciência”. Cfr. Rodríguez, P. (1995). Op. cit.,p. 72.

13. Os notáveis problemas psicossociais que padece uma boa parte do clero católico, especialmente do diocesano, não só derivam das carências afetivo-sexuais, embora sendo esta esfera uma parte fundamental para o desenvolvimento, maturação e equilíbrio da personalidade humana. A própria estrutura formativa do clero e algumas dinâmicas vitais forçadas contribuem para gerar problemas psicológicos que têm sido evitados, em grande parte, entre o clero de outras confissões católicas ou cristãs em geral. A este respeito pode consultar-se o capítulo 5 do já citado estudo: A vida sexual do clero e a bibliografia específica que nele se relaciona.


Simbologia: Os 12 Apóstolos e os Simbolos Astrológicos



A cada ciclo, grupo de seres vêm ao planeta cumprir sua tarefa. Pela lei da afinidade, vêm desenvolver e trabalhar a sua essência sob determinada configuração e características, que conhecemos como signo e conjunturas astrológicas.

Eleição dos Doze

"E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar e passou a noite em oração a Deus. E quando já era dia, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze deles a quem também deu o nome de apóstolos: Simão, ao qual também chamou Pedro, e André seu irmão; Tiago (menor) e João, Filipe e Bartolomeu; e Mateus e Tomé, Tiago (maior) filho de Alfeu e Simão chamado o Zelador e Judas (Tadeu) filho de Tiago e Judas Iscariotes, que foi o traidor". LC:6 12-16


Com o desaparecimento de Judas, apresentaram-se dois: José o Justo e Matias, "e lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias. E por voto comum foi contado com os onze apóstolos." At:2-26

Houve uma época em que a química e a alquimia eram uma só ciência, assim como a astrologia e astronomia, até que, por volta do século XIII, o Papa Inocêncio III decretou uma bula, separando a ciência entre sagrada e profana. Daí, astrólogos e alquimistas passaram a ser perseguidos.

Leonardo da Vinci, que era um iniciado, decidiu imortalizar através da pintura toda a simbologia astrológica e numerológica contida nos ensinamentos do cristianismo esotérico, deixando este registro no quadro A Última Ceia, onde cada um dos 12 apóstolos corresponde a cada um dos doze signos astrológicos.

Leonardo da Vinci esquematizou a disposição dos apóstolos de acordo com a posição astronômica, da direita para a esquerda de quem vê o quadro.

Portanto, quem está na cabeceira da mesa é Simão, que corresponde ao signo de Áries. Signo de fogo e de ação, Simão indica com as mãos a direção a tomar. Áries rege a cabeça na anatomia astrológica, e a testa de Simão é bem realçada na pintura. Sua prontidão ariana também é mostrada pelas mãos desembaraçadas, para agirem conforme a vontade e coragem cardeal de Áries.

Ao seu lado, está Judas Tadeu, o Taurino. Seu semblante é sereno enquanto escuta Simão (Áries/cérebro) vai digerindo lentamente suas impressões, acolhendo-as com uma das mãos, revelando a possessividade de Touro (que é terra/receptivo). No corpo humano, Touro rege o pescoço e a garganta, e o de Judas Tadeu está bem destacado.

Mateus vem em seguida, correspondendo a Gêmeos, signo duplo que necessita de interação com as pessoas e de colher informações. Mateus tem as mãos dispostas para um lado e o rosto para o outro, revelando a dinâmica geminiana de querer falar e ouvir a todos ao mesmo tempo.

Mateus era repórter e historiador da vida de Jesus, e Gêmeos rege a casa III, sector de comunicação e conhecimento.

Logo após está Filipe, o Canceriano. Suas mãos em direção ao peito mostram a tendência canceriana para acolher, proteger e cuidar das coisas. Regido pela Lua, Câncer trabalha com o sentir; Filipe está inclinado, como se estivesse se oferecendo para alguma tarefa.

Ao seu lado está Tiago Menor, o Leonino, de braços abertos, revelando nesse gesto largo o poder de irradiar amor (Leão rege o coração e o chacra cardíaco), ele se impõe nesse gesto confiante, centralizando atenções.

Atrás dele, quase que escondido, está Tomé, o Virginiano, que, apesar de modesto, não deixa de expressar o lado crítico e inquisitivo de Virgem – com o dedo em riste ele contesta diante de Cristo; foi Tomé quem quis o ver para crer.

Libra é simbolizado por João, o discípulo amado de Jesus. Com as mãos entrelaçadas, ele pondera e considera todas as opiniões antes de tomar posições - Libra rege a casa VII, é o sector do outro e isso requer imparcialidade e diplomacia.

Ao seu lado, está Judas Iscariotes, representando Escorpião. Com uma das mãos ele segura um saco de dinheiro, pois era o organizador das finanças da comunidade dos apóstolos (Escorpião rege a casa VIII, que trata dos bens e valores dos outros) e com a outra mão ele bate na mesa, protestando.

Sagitário é representado por Pedro, o Pescador de Almas. Foi ele quem fez o dogma e instituiu a lei da Igreja – Sagitário rege a casa IX, sector das leis, religiões e filosofia. Seu dedo aponta para Jesus – a meta de Sagitário é espiritual – e na outra mão ele segura uma faca, representando o lado instintivo nos homens. Ele se eleva entre outros dois apóstolos, trazendo esclarecimentos (luz) à discussão.

Ao seu lado está André, que representa Capricórnio. Conhecedor das responsabilidades, com seu gesto restritivo impõe limites. Seu rosto magro e ossos salientes revelam o biotipo capricorniano. Seus cabelos e barbas brancas e seu semblante sério mostram a relação de Capricórnio com o tempo e a sabedoria. Os temores de André são apaziguados por;

Tiago Maior, Aquariano, que debruça uma de suas mãos sobre seus ombros, num gesto amigável, enquanto a outra se estende aos demais. Ele visualiza o conjunto, percebendo ali o trabalho em grupo liderado pelo Mestre. Aquário rege a casa XI, que é o sector dos grupos, amigos e esperanças.

O último da mesa é Bartolomeu, que representa Peixes. Seus pés estão em destaque (que são regidos por Peixes na anatomia astrológica). Ele parece absorvido pelo que acontece à mesa, e, com as mãos apoiadas, quase debruçado, revela devoção envolvido pelo clima desse último encontro entre os apóstolos e Jesus Cristo, já que numa determinada hora as coisas ficaram um pouco confusas, pois Jesus revelou que "a mão do que me trai está comigo à mesa".

A traição veio de Judas Iscariotes

Político, administrador e homem de negócios, Judas viu em Cristo a esperança de mudança no plano material, porém, quando Cristo deixou claro que libertaria apenas o espírito e não a matéria, provocou em Judas um grande equívoco. Após ser delatado, Jesus foi levado a um conselho do qual fazia parte José de Arimatéia. Senador, rico e membro ilustre desse conselho, não concordou com a condenação de Jesus – secretamente era ele também um cristão.

Quando Jesus foi crucificado, depois que os soldados romanos se foram, José de Arimatéia levou até a cruz a taça (o Graal) usada na última ceia e recolheu também a lança que o soldado Longinus havia usado para ferir Cristo. Depois, levou o Graal para Patmos e lá seu filho Josephus deu a taça a um santo inglês, que a escondeu em Gales, primeiro numa caverna e depois no castelo do Graal.

A busca do Santo Graal passou, então, a ser a meta dos que queriam a vida eterna. Sua prática construtiva envolve os Cavaleiros da Távola Redonda da Corte do Rei Artur. Quanto à lança, conta-se que percorreu longo caminho, pois lhe foi atribuída poderes de cura, já que o próprio Longinus foi inexplicavelmente curado. Ele tinha uma infecção no olho e ao ferir Jesus um pouco de sangue caiu na vista doente, fazendo desaparecer imediatamente a infecção.

A conquista de muitas batalhas foram atribuídas ao uso da ponta dessa lança por muitos líderes, entre eles, Constantino, Carlos Magno, Napoleão e Hitler – este último desprezava o cristianismo, porém, a retirou do palácio de Noremberg, usando-a como símbolo de limpeza étnica.